ISSN: 1983-6007 N° da Revista: 16 Janeiro à Abril de 2012
 
   
 
   
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Das medidas sanitárias à medida da psicose: o objeto reciclado

Sanitary measures to measures of psychosis: the recycled object

 
     
 

Cláudia Maria Generoso
                            
Doutoranda em Estudos Psicanalíticos/ UFMG, sob orientação do professor
Antônio Teixeira, cujo estudo de caso faz parte.
Psicóloga da rede pública de saúde mental de Betim-MG
Integrante do Núcleo de Investigação nas Toxicomanias e no Alcoolismo - NIPP do IPSM-MG
E-mail: claudia.generoso@yahoo.com.br

 

Resumo: Este artigo apresenta a construção de um caso clínico que mobilizou dispositivos públicos, como a saúde mental, a vigilância sanitária e limpeza urbana, o que permitiu evidenciar a singularidade do sintoma do sujeito e suas formas de gozo.  O artigo traz ainda a contribuição acerca da teorização sobre o lugar da psicanálise nas instituições, onde ocorre o encontro dos saberes na prática, ética e técnica envolvidas no tratamento dos sujeitos. O conceito de sintoma é tratado no sentido de demonstrar como sua singularidade aponta para as saídas construídas pelo próprio sujeito e como o psicanalista pode sustentar um lugar de outro razoável para a singular solução.
Palavras-chave: Psicose, Construção do Caso Clínico, Sintoma, Serviços Públicos.

Abstract: This article presents the construction of a case that mobilized public devices, such as mental health, health surveillance and street cleaning, which has highlighted the uniqueness of the symptom of the subject and its forms of enjoyment. The article also brings about the contribution of theorizing about the place of psychoanalysis in institutions, where the meeting of knowledge in practice, ethics and technique involved in the treatment of subjects occurs. The concept of symptom is treated in order to demonstrate how their uniqueness points to those built by the subject and how the psychoanalyst outputs can sustain a reasonable place to another the single solution.
Keywords: Psychosis, Clinical Case Construction, Symptom, Public Services.

 
 

 

Os casos de psicose extraordinária evidenciam o funcionamento do real do sintoma a céu aberto, prevalecendo a desorientação do gozo sem anteparo do Nome do Pai, tal como nas experiências de corpo despedaçado, sem bordas, como nos mostra o caso Abrahão e sua vivência problemática com o corpo e suas tentativas de solução que não correspondem a medidas padronizadas. O caso também demonstra como a presença de um praticante da psicanálise lacaniana numa instituição de saúde mental visa zelar pelo trabalho singular do sujeito na busca de medida para seu gozo, apesar de seu contexto sanitário e as tecnologias ofertadas pelo discurso científico de controle populacional.

Com Freud e Lacan sabemos que o gozo advindo do sintoma é a parte que indica o mal estar constituinte de cada um e da civilização, mostrando que algo não funciona, mantendo a desarmonia. Diante desse mal estar, índice do sintoma correlato ao gozo, a psicanálise encontra seu lugar ao se ocupar daquilo que não funciona (LACAN, 1974/2004). A psicanálise nos indica também que é no sintoma que está o singular de cada sujeito. Lacan (1975-76/2007) refere-se ao sintoma como um modo do ser falante se sustentar na vida. Uma de suas definições sobre o sintoma destaca a vertente de satisfação libidinal, o modo de gozo de cada um. A psicose orientará o final do seu ensino, tendo em Joyce a noção de sintoma como função que fixa o gozo. Assim, a noção de sintoma vai além do sentido a ser decifrado, considerando também sua vertente real enquanto dispositivo de gozo, de modo de satisfação da pulsão. Nessa conjuntura encontram-se outras formas de respostas, de tratamento ao mal-estar causado pela desordem pulsional, tal como a idéia do saber-fazer com o sintoma, o qual tem um caráter de invenção ou artifício, servindo para ancorar o gozo (LACAN, 1975-76/2007). O saber-fazer de Abraão com o excesso de gozo sintomático nos mostra seus artifícios pela via do objeto reciclado, tal como veremos a seguir.

Abraão é paciente da rede de saúde mental de uma cidade do Brasil desde 1998.

Nos últimos anos passou a acumular “lixo” em sua casa, provocando a presença de roedores, o que levou os vizinhos a denunciarem a situação. Os primeiros anos de seu tratamento foram marcados por graves passagens ao ato de cortar o pescoço, tentando se matar devido ao mau cheiro que exalava de seu corpo - cheiro da AIDS, o qual iniciou com o desencadeamento da psicose aos 40 anos de idade, após uma cirurgia de fimose. Encontro problemático com o real da castração que passou a ser experimentada pelo gozo desregulado, cuja solução foi a castração no real do corpo.

Até o desencadeamento da psicose sua vida era em torno do trabalho de pedreiro, casamento, grupo de pagode onde tocava pandeiro e uso de etílicos desde a infância. Até então, sustentava-se numa identificação imaginária com o pai que tocava pandeiro e bebia muito, levando-o, ainda criança, para as rodas de samba onde iniciou o filho no uso de etílicos. Quando essa identificação não mais o sustentou, o uso de etílicos ganhou outra função - amenizar as vivências delirante-alucinatórias.

Com a morte do pai (2007) surgiu outra solução delirante: vigiar a cidade andando de forma imperativa pelas ruas, só parando quando caía embriagado. Depois começou a recolher objetos e restos de materiais que encontrava pelas ruas, nomeandoos de recicláveis, e os levava para casa, entulhando-a a ponto de o único espaço livre ser o lugar que cabia o seu corpo para deitar. Algo aí se operou delineando pontos de ancoragens exteriores ao corpo através da materialização dos objetos, mas ainda problemático, pois a casa era o limite para os mesmos e estes para o seu corpo.

Assim, foi acionada uma rede de dispositivos públicos para resolver o caso: Vigilância Sanitária (protocolo de risco para a saúde da população), Limpeza Urbana (retirar o lixo), Assistência Social (benefícios sociais). Essas medidas não surtiram efeito, pois Abraão resistia a elas, sendo a Saúde Mental aí convocada.

Após anos de tentativas de tratamento sem efeitos importantes para Abraão, era preciso buscar outras possibilidades para conduzi-lo. Essa condução do tratamento estava orientada pela noção de desejo do analista, o qual é fundamental na formação dos praticantes da psicanálise que trabalham em instituições, sendo importante a existência de psicanalistas nesse meio, mas não o discurso psicanalítico na posição de mestria, concorrendo com os outros discursos ali existentes. Dessa forma, cada analista poderá empreender uma ação que zele pelo detalhe que surge e caracteriza cada caso como único nesse contexto pulverizado por muitos saberes. Tal como comenta Miller (s/d), nos novos contextos e nas instituições, os analistas devem ser como objeto nômade e a psicanálise como uma instalação portátil, suscetível de deslocar para esses lugares. Ele diz que o lugar analítico possível na instituição é o que ele nomeia de um Lugar Alfa, o qual é um lugar de respostas e formulação de questões que tem a ver com o saber do inconsciente e estabelecimento da transferência. Orientada por essa perspectiva é que, a partir do convite de Abraão, passei a atendê-lo em sua casa. Nesses encontros evidenciou-se a função da reciclagem do lixo nesse caso. Configurava-se aí um movimento de separação mínima de sua posição de objeto-resto numa tentativa de reciclá-lo (ZENONI, 2011), cessando a castração no real do seu corpo. Porém, não conseguia dar vazão ao lixo acumulado, sendo importante uma parceria para ajudá-lo nesse movimento. O reciclável como a singular solução de Abraão de tratar a seu corpolixo foi a pista que orientou o tratamento e o processo de intervenção em sua casa, sendo isso transmitido nos encontros com os vários dispositivos para a construção do caso clínico. Houve, então, uma flexibilidade nas prescrições protocolares: alguém o ajudava a separar o material e a Limpeza Urbana levava Abraão para efetuar sua venda. Ele percebeu que o material era pouco valorizado no comércio e isso o fez se declinar da ideia de recolher objetos. A Vigilância Sanitária foi demandada por ele para exterminar os ratos. Ele passou a me procurar mais para dizer da situação precária de sua casa e solicitar aposentadoria.

Atualmente Abraão quase não acumula lixo, mantendo-se um resto num canto de seu quarto. Começou a acolher em casa os companheiros de bebida moradores de rua e guardar alguns objetos deles de forma intercambiável. Assim, foi possível fazer caber nas medidas sanitárias algo da singular solução de Abraão - contornar o excesso do seu corpo-lixo via operação do objeto reciclado. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

LACAN, J. (1974/2004) Entrevista publicada revista Magazine Literraire (Emilio Granzotto: revista Panorama).

LACAN, J. (1975-76/2007) O Seminário Livro XXIII: o sinthoma. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.

MILLER, J.-A. Rumo ao PIPOL 4. Correio – Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, no. 60. EBP, s/d, p. 07-14.

MILLER, J-A. Conclusão do PIPOL V. Site enapol 

ZENONI, A. (2011) Rêves, idéaux, et usages de l’instituition.  Le Bulletin électronique de l’Uforca pour l’Université populaire Jacques Lacan, 15 novembre 2011. http://www.lacan-universite.fr/lebulletin/2011/11

 
  Recebido em outubro de 2013
Aceito em novembro de 2013
 
 
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